Ronaldo da Silva, visionário moderno – pelo menos assim se autodenominava. Entre cafés e vídeos na Cos.TV como "Criptomoedas: Rico em 5 Minutos!", decidiu que especular no criptomercado era seu bilhete de entrada para a elite. "Por que trabalhar, se posso deixar a blockchain fazer por mim?", ele dizia, ecoando Lafargue em um manifesto disfarçado de autojustificação preguiçosa. Via que o trabalho era uma conspiração das elites para roubar o melhor do nosso tempo: as sagradas horas de binge-watching.
Inspirado por 'Sapiens', de Harari, Ronaldo batizou sua carteira cripto de "Narrativa de Cooperação". Achava poético – "Isso que o dinheiro é, ficção que todos concordam fingir que existe!" – embora sua namorada, Júlia, visse que ele estava só enrolando para não lavar a louça. Ronaldo tinha planos grandiosos. Investiu todo seu dinheiro, incluindo a poupança da avó, em moedas como
$TRUMP e
#LIBRA certo de que lixos digitais seriam o futuro.
A narrativa realmente parecia funcionar. Gráficos subiam como foguetes, e Ronaldo já escolhia o modelo da sua Lamborghini, já que o carro que tinha era um Celta com bateria ruim. Mas, como qualquer bom leitor de Harari sabe, ficções compartilhadas têm fragilidades. Numa terça fatídica, entre tweets de bilionários e anúncios de reguladores chineses, suas memes derreteram mais rápido que sorvete no sol. Quando tentou vender, a corretora travou – ao que ele chamou de "sabotagem do sistema".
Sem opção, Ronaldo voltou ao seu estado natural: deitado no sofá reclamando da vida, enquanto pesquisava nova estratégia. "Talvez metaverso seja o próximo passo", disse para Júlia com um óculos de realidade virtual que nem sabia usar. Lafargue teria orgulho de Ronaldo, não pelo fracasso financeiro, mas pela dedicação à arte de evitar o trabalho físico.
Assim, Ronaldo permaneceu um profeta das criptos fracassado, mas otimista, convencido de que o próximo golpe de sorte o tiraria de sua apatia digital. Afinal, se dinheiro é ficção, ninguém pode culpá-lo por sonhar grande.
$METIS $OM #Write2Earn